Consulta diaria


Primeira leitura: Is 52,13 - 53,12: 
Ele foi ferido por causa de nossos pecados.
Salmo:  Sl 30,2.6.12-13.15-16.17.25 (R. Lc 23,46): 
Ó Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito.
Segunda leitura: 1Hb 4,14-16; 5,7-9: 
Ele aprendeu a ser obediente e tornou-se causa de salvação para todos os que lhe obedecem.
Evangelio:
Jo 18,1-19,42: 
Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo João.

 

 

Prenderam Jesus e o amarraram. Naquele tempo: Jesus saiu com os discípulos para o outro lado da torrente do Cedron. Havia aí um jardim, onde ele entrou com os discípulos. Também Judas, o traidor, conhecia o lugar, porque Jesus costumava reunir-se aí com os seus discípulos. Judas levou consigo um destacamento de soldados e alguns guardas dos sumos sacerdotes e fariseus, e chegou ali com lanternas, tochas e armas. Então Jesus, consciente de tudo o que ia acontecer, saiu ao encontro deles e disse: 'A quem procurais?' Responderam: 'A Jesus, o nazareno'. Ele disse: 'Sou eu'. Judas, o traidor, estava junto com eles. Quando Jesus disse: 'Sou eu', eles recuaram e caíram por terra. De novo lhes perguntou: 'A quem procurais?' Eles responderam: 'A Jesus, o nazareno'. Jesus respondeu: 'Já vos disse que sou eu. Se é a mim que procurais, então deixai que estes se retirem'. Assim se realizava a palavra que Jesus tinha dito: 'Não perdi nenhum daqueles que me confiaste'. Simão Pedro, que trazia uma espada consigo, puxou dela e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O nome do servo era Malco. Então Jesus disse a Pedro: 'Guarda a tua espada na bainha. Não vou beber o cálice que o Pai me deu?' Então, os soldados, o comandante e os guardas dos judeus prenderam Jesus e o amarraram. Conduziram-no primeiro a Anás, que era o sogro de Caifás, o sumo sacerdote naquele ano. Foi Caifás que deu aos judeus o conselho: 'É preferível que um só morra pelo povo'. Simão Pedro e um outro discípulo seguiam Jesus. Esse discípulo era conhecido do sumo sacerdote e entrou com Jesus no pátio do sumo sacerdote. Pedro ficou fora, perto da porta. Então o outro discípulo, que era conhecido do sumo sacerdote, saiu, conversou com a encarregada da porta e levou Pedro para dentro. A criada que guardava a porta disse a Pedro: 'Não pertences também tu aos discípulos desse homem?' Ele respondeu: 'Não'. Os empregados e os guardas fizeram uma fogueira e estavam-se aquecendo, pois fazia frio. Pedro ficou com eles, aquecendo-se. Entretanto, o sumo sacerdote interrogou Jesus a respeito de seus discípulos e de seu ensinamento. Jesus lhe respondeu: 'Eu falei às claras ao mundo. Ensinei sempre na sinagoga e no Templo, onde todos os judeus se reúnem. Nada falei às escondidas. Por que me interrogas? Pergunta aos que ouviram o que falei; eles sabem o que eu disse.' Quando Jesus falou isso, um dos guardas que ali estava deu-lhe uma bofetada, dizendo: 'É assim que respondes ao sumo sacerdote?' Respondeu-lhe Jesus: 'Se respondi mal, mostra em quê; mas, se falei bem, por que me bates?' Então, Anás enviou Jesus amarrado para Caifás, o sumo sacerdote. Simão Pedro continuava lá, em pé, aquecendo-se. Disseram-lhe: 'Não és tu, também, um dos discípulos dele?' Pedro negou: 'Não!' Então um dos empregados do sumo sacerdote, parente daquele a quem Pedro tinha cortado a orelha, disse: 'Será que não te vi no jardim com ele?' Novamente Pedro negou. E na mesma hora, o galo cantou. De Caifás, levaram Jesus ao palácio do governador. Era de manhã cedo. Eles mesmos não entraram no palácio, para não ficarem impuros e poderem comer a páscoa. Então Pilatos saiu ao encontro deles e disse: 'Que acusação apresentais contra este homem?' Eles responderam: 'Se não fosse malfeitor, não o teríamos entregue a ti!' Pilatos disse: 'Tomai-o vós mesmos e julgai-o de acordo com a vossa lei.' Os judeus lhe responderam: 'Nós não podemos condenar ninguém à morte'. Assim se realizava o que Jesus tinha dito, significando de que morte havia de morrer. Então Pilatos entrou de novo no palácio, chamou Jesus e perguntou-lhe: 'Tu és o rei dos judeus?' Jesus respondeu: 'Estás dizendo isto por ti mesmo, ou outros te disseram isto de mim?' Pilatos falou: 'Por acaso, sou judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim. Que fizeste?'. Jesus respondeu: 'O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui.' Pilatos disse a Jesus: 'Então tu és rei?' Jesus respondeu: 'Tu o dizes: eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz.' Pilatos disse a Jesus: 'O que é a verdade?' Ao dizer isso, Pilatos saiu ao encontro dos judeus, e disse-lhes: 'Eu não encontro nenhuma culpa nele. Mas existe entre vós um costume, que pela Páscoa eu vos solte um preso. Quereis que vos solte o rei dos Judeus?' Então, começaram a gritar de novo: 'Este não, mas Barrabás!' Barrabás era um bandido. Então Pilatos mandou flagelar Jesus. Os soldados teceram uma coroa de espinhos e colocaram-na na cabeça de Jesus. Vestiram-no com um manto vermelho, aproximavam-se dele e diziam: 'Viva o rei dos judeus!' E davam-lhe bofetadas. Pilatos saiu de novo e disse aos judeus: 'Olhai, eu o trago aqui fora, diante de vós, para que saibais que não encontro nele crime algum.' Então Jesus veio para fora, trazendo a coroa de espinhos e o manto vermelho. Pilatos disse-lhes: 'Eis o homem!' Quando viram Jesus, os sumos sacerdotes e os guardas começaram a gritar: 'Crucifica-o! Crucifica-o!' Pilatos respondeu: 'Levai-o vós mesmos para o crucificar, pois eu não encontro nele crime algum.' Os judeus responderam: 'Nós temos uma Lei, e, segundo esta Lei, ele deve morrer, porque se fez Filho de Deus'. Ao ouvir estas palavras, Pilatos ficou com mais medo ainda. Entrou outra vez no palácio e perguntou a Jesus: 'De onde és tu?' Jesus ficou calado. Então Pilatos disse: 'Não me respondes? Não sabes que tenho autoridade para te soltar e autoridade para te crucificar?' Jesus respondeu: 'Tu não terias autoridade alguma sobre mim, se ela não te fosse dada do alto. Quem me entregou a ti, portanto, tem culpa maior.' Por causa disso, Pilatos procurava soltar Jesus. Mas os judeus gritavam: 'Se soltas este homem, não és amigo de César. Todo aquele que se faz rei, declara-se contra César'. Ouvindo estas palavras, Pilatos trouxe Jesus para fora e sentou-se no tribunal, no lugar chamado 'Pavimento', em hebraico 'Gábata'. Era o dia da preparação da Páscoa, por volta do meio-dia. Pilatos disse aos judeus: 'Eis o vosso rei!' Eles, porém, gritavam: 'Fora! Fora! Crucifica-o!' Pilatos disse: 'Hei de crucificar o vosso rei?' Os sumos sacerdotes responderam: 'Não temos outro rei senão César'. Então Pilatos entregou Jesus para ser crucificado, e eles o levaram. Jesus tomou a cruz sobre si e saiu para o lugar chamado 'Calvário', em hebraico 'Gólgota'. Ali o crucificaram, com outros dois: um de cada lado, e Jesus no meio. Pilatos mandou ainda escrever um letreiro e colocá-lo na cruz; nele estava escrito: 'Jesus o Nazareno, o Rei dos Judeus'. Muitos judeus puderam ver o letreiro, porque o lugar em que Jesus foi crucificado ficava perto da cidade. O letreiro estava escrito em hebraico, latim e grego. Então os sumos sacerdotes dos judeus disseram a Pilatos: 'Não escrevas 'O Rei dos Judeus', mas sim o que ele disse: 'Eu sou o Rei dos judeus'.' Pilatos respondeu: 'O que escrevi, está escrito'. Depois que crucificaram Jesus, os soldados repartiram a sua roupa em quatro partes, uma parte para cada soldado. Quanto à túnica, esta era tecida sem costura, em peça única de alto a baixo. Disseram então entre si: 'Não vamos dividir a túnica. Tiremos a sorte para ver de quem será'. Assim se cumpria a Escritura que diz: 'Repartiram entre si as minhas vestes e lançaram sorte sobre a minha túnica'. Assim procederam os soldados. Perto da cruz de Jesus, estavam de pé a sua mãe, a irmã da sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: 'Mulher, este é o teu filho'. Depois disse ao discípulo: 'Esta é a tua mãe'. Daquela hora em diante, o discípulo a acolheu consigo. Depois disso, Jesus, sabendo que tudo estava consumado, e para que a Escritura se cumprisse até o fim, disse: 'Tenho sede'. Havia ali uma jarra cheia de vinagre. Amarraram numa vara uma esponja embebida de vinagre e levaram-na à boca de Jesus. Ele tomou o vinagre e disse: 'Tudo está consumado'. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. Era o dia da preparação para a Páscoa. Os judeus queriam evitar que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque aquele sábado era dia de festa solene. Então pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas aos crucificados e os tirasse da cruz. Os soldados foram e quebraram as pernas de um e depois do outro que foram crucificados com Jesus. Ao se aproximarem de Jesus, e vendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas; mas um soldado abriu-lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água. Aquele que viu, dá testemunho e seu testemunho é verdadeiro; e ele sabe que fala a verdade, para que vós também acrediteis. Isso aconteceu para que se cumprisse a Escritura, que diz: 'Não quebrarão nenhum dos seus ossos'. E outra Escritura ainda diz: 'Olharão para aquele que transpassaram'. Depois disso, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus - mas às escondidas, por medo dos judeus - pediu a Pilatos para tirar o corpo de Jesus. Pilatos consentiu. Então José veio tirar o corpo de Jesus. Chegou também Nicodemos, o mesmo que antes tinha ido a Jesus de noite. Trouxe uns trinta quilos de perfume feito de mirra e aloés. Então tomaram o corpo de Jesus e envolveram-no, com os aromas, em faixas de linho, como os judeus costumam sepultar. No lugar onde Jesus foi crucificado, havia um jardim e, no jardim, um túmulo novo, onde ainda ninguém tinha sido sepultado. Por causa da preparação da Páscoa, e como o túmulo estava perto, foi ali que colocaram Jesus.

Comentário

A) Oferecemos inicialmente um comentário bíblico-teológico tradicional.
Is 52,13-53,12: Quarto canto do Servo de Javé.
O quarto poema do servo mostra um personagem paciente e glorificado. Trata-se da narrativa que se faz da paixão, morte e triunfo do personagem, enquadrada por uma introdução e epílogo que o autor põe na boca de Deus.
O conteúdo é claríssimo. Um inocente que sofre, deixando de lado a doutrina da retribuição que considera o sofrimento como consequência do pecado, enquanto que os culpados são respeitados. Ainda mais surpreendente é que o humilhado triunfe e que um morto continue vivendo. O mesmo texto proclama que se trata de algo inaudito.
A biografia do servo é apresentada de maneira sucinta: nascimento e crescimento (15,2), sofrimento e paixão (3,7) condenação e morte (8), sepultura (9) e glorificação (10-11a). Os que narram os acontecimentos participam deles; são transformados e dão conta desta transformação.
Deus confirma a mensagem com seu oráculo. Anula o juízo humano declarando o seu servo inocente. Este sofrimento do inocente servirá para a conversão dos demais. Sua vida, paixão e morte serviram de intercessão pelos demais e o Senhor o escutou. O triunfo do Servo é a realização do plano do Senhor (v. 10).
Depois de lermos o texto nos perguntamos: Quem é este personagem que sofre a morte e continua vivo? A quem ele nos recorda? Sem dúvida a figura se parece com Moisés, ou a Josias, talvez com Jeconias o desterrado, ou ao profeta Jeremias. Alguns pensam que é o mesmo servo dos cantos precedentes, outros dizem que é o profeta Isaías II, outros o identificam com o povo judeu ou o pequeno resto. Uma coisa é evidente: Jesus, o Messias, quis modelar sua vida de acordo com o servo de Is 53.
Cristo tinha com clareza a ideia de que devia sofrer e morrer e estes eram elementos de sua missão redentora. Sua identificação com o servo de Javé em Mc 14,24 e seus paralelos, sacrificado por todos, é evidente. O Filho do Homem vem para cumprir sua missão de Servo de Javé. Uma pergunta: A partir de que momento se reconheceu Cristo como Servo de Javé? Desde o Batismo (Mc 1,11, paralelo em Is 42,1). Em São João também aparece muito a ideia da identificação de Cristo com o Servo. Então não é uma identificação posterior feita pela comunidade cristã, mas é anterior. É possível que o autor não tivesse compreendido o significado completo e total; talvez não pensou em Cristo, mas num personagem posterior que faria a intercessão total.
O Servo de Javé é uma personalidade corporativa. É Cristo que age pessoalmente e sua atuação repercute em toda a comunidade.
Salmo 30 (31): “Senhor, eu ponho em vós minha esperança; que eu não fique envergonhado”.
Este é um salmo de súplica e ação de graças. Em meio à angústia o salmista mescla os gritos de socorro com as expressões de confiança porque tem certeza de que o Senhor é sua rocha e fortaleza. Esta confiança do salmista no momento da provação convida-nos a evocar em nós esse mesmo sentimento certos de que Deus escutará nossas súplicas.
Hebreus 4,14-16; 5,7-9: Deus o proclamou sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque.
O autor da carta aos Hebreus apresenta a Jesus como Sumo Sacerdote, não somente como o responsável pelo sacrifício como acontecia no antigo Testamento, mas como o homem cheio de misericórdia, que assumiu todos os sofrimentos do ser humano até a morte, de tal maneira que se transformou no modelo para todos os homens. Sua vida esteve sempre condicionada à vontade do Pai, mesmo no sofrimento.
A este sumo sacerdote podemos aproximar-nos com liberdade, sem medo, porque em seu trono abunda a graça e por sua misericórdia conseguiremos o apoio necessário.
Cristo foi chamado por Deus da mesma forma que Aarão e segundo a ordem de Melquisedeque, mas não mais para oferecer o sacrifício e as oblações, porque ele mesmo é a vítima. É um novo tipo de sacerdote que proporciona a salvação a todos os que se aproximam dele e sua grande tarefa é conduzir todos para o Pai.

Leitura da Paixão: Jo 18,1-19,42

A narrativa da paixão segundo São João nos mostra a imagem de Jesus que o evangelista quis forjar através de todo o seu evangelho: um Jesus que é a revelação do Pai, ao mesmo tempo em que nele se revela a plenitude do amor. Mesmo pregado na cruz sua vida e sua morte é uma vitória, porque "tudo está consumado" como era a vontade do Pai.
As orações comunitárias

As orações que a liturgia nos propõe expressam os sentimentos que movem a comunidade cristã. A universalidade desta oração inclui até as pessoas que não pertencem à Igreja e quem não acredita em Deus. A morte de Jesus é uma proposta para que todos juntos participemos realmente da nova história que surge da cruz vitoriosa.

Reflexão para hoje

A morte tem sido o grande mistério que vem preocupando o homem através de toda sua história. Porque, embora este tenha tentado negar todas as verdades, no entanto, há uma que sempre lhe persegue e nunca pode descartá-la: a realidade da morte. Nem mesmo os ateus mais recalcitrantes se atrevem a negar que eles também hão de morrer.
Para os pagãos a morte era toda uma tragédia; não tinham ideias claras sobre o além, por isso embora admitissem uma existência além da sepultura, tal existência estava rodeada de obscuridade e enigmas. Além do mais, nem todos admitiam uma vida depois da morte porque esta era um desaparecimento total, o fim de todas as esperanças, a frustração de todos os anseios. Os próprios judeus aceitavam a ressurreição, mas a protelavam para o fim da história.
Para os discípulos a situação era bem desalentadora; eles esperavam um Messias terreno que ia reviver as glórias do reinado de Davi e Salomão, e eis que suas ilusões se desvaneceram como a espuma. Essa sensação de desalento está claramente expressa num dos discípulos de Emaús: "Nós esperávamos que fosse ele quem haveria de restaurar Israel e agora, além de tudo isso, é hoje o terceiro dia que essas coisas sucederam" (Lc 24,21).

A morte de Jesus havia sido um acontecimento trágico; seus inimigos haviam conseguido o que queriam: tirá-lo de circulação; os fariseus, porque havia desmascarado sua hipocrisia, os sacerdotes porque havia denunciado o vazio de um culto formalista; os saduceus porque havia refutado a negação da ressurreição; os ricos porque lhes tinha jogado na cara a injustiça de suas ações; os romanos porque pensaram que era um revolucionário.
Jesus morreu abandonado por todos; seus discípulos fugiram, os judeus o desprezavam; o Pai ficou surdo ao seu clamor; nessa tarde a cruz sustentava o corpo de um executado, condenado pela justiça humana e desprezado por seu povo. Parecia que o ódio havia vencido sobre o amor, o poder sobre a fraqueza de um homem, as trevas sobre a luz, a morte sobre a vida. Naquela tarde, quando as trevas caíram sobre o monte Calvário, parecia que tudo havia terminado, e que os inimigos de Jesus podiam finalmente descansar tranquilos.
Porém, eis que, no mais profundo dos acontecimentos, a realidade era bem outra. Jesus não era um vencido, mas um triunfador; a morte não o aprisionara, mas estava livre de seu abraço mortal; aquilo que parecia ignomínia se transformou em glória; o que muitos pensavam que era o fim, era apenas o começo de uma nova etapa da história da salvação. A cruz deixou de ser um instrumento de tortura, para converter-se no trono de glória do novo rei, a coroa de espinhos que cingiu sua cabeça é agora um diadema de honra.
Ao morrer, Jesus deu um novo sentido à morte, à vida, à dor. A pergunta desesperada do homem sobre a morte encontrou uma resposta. Mas isto não significa que possamos cruzar os braços e contentar-nos em ensinar que a morte de Jesus significou apenas uma mudança na vida da humanidade. Essa mudança deve manifestar-se em nossa existência porque ele não aceitou sua morte com a resignação de quem se submete a um destino iniludível, mas como quem aceita uma missão de Deus. Por isso sua morte condena a injustiça dos crimes e assassinatos, mas nos pede fazer alguma coisa contra a injustiça porque não apenas condena a exploração dos oprimidos, mas nos pede para melhorar sua situação; a morte de Jesus não é somente um rechaço do abandono das multidões, ela exige que nos aproximemos do desvalido.
Sua morte não é apenas uma recordação que revivemos cada ano, mas um chamado a melhorar o mundo, a destruir as estruturas de pecado; a restabelecer as condições de paz; a construir uma sociedade baseada na concórdia, na colaboração e na justiça.
Jesus continua morrendo em nossas periferias marginalizadas, nos soldados e guerrilheiros que jazem nas selvas, nos sequestrados e prisioneiros, nos enfermos e nos ignorantes. Compete a nós fazer com que esse grito de desespero que Jesus pronunciou - “Pai, por que me abandonaste” - se transforme no grito de esperança: “Pai em tuas mãos entrego o meu espírito”.

B) Agora, para complementar, oferecemos um roteiro homilético de meditação bíblico-espiritual.
“E, inclinando a cabeça entregou o espírito" (Jo 18,1-19).
Vamos contemplar hoje em silêncio a Jesus, morto na cruz, que ocupa o centro da Sexta-feira Santa: aí descobrimos o grande amor de Deus pelo mundo, que se torna solidário com o sofrimento de todos os seres humanos. Jesus foi crucificado fora das muralhas de Jerusalém, onde morriam os amaldiçoados e abandonados de Deus.
Jesus se encontra agora absolutamente só, agonizando na cruz. O evangelista João, escreve: "Sabendo que tudo estava consumado, e para que a Escritura se cumprisse até o fim, disse: Tenho sede". Não te referias à sede indizível de teu corpo esvaído em sangue, coberto de feridas ardentes e exposto ao sol implacável de um meio-dia do Oriente. A sede de Jesus revela o desejo de Deus de derrubar os muros que nos separam dele, que nos encerram em nós mesmos, nos amuralham em nossa autossuficiência e nos impedem de estar plenamente vivos. Nós também temos sede de Vida e de sentido.
Jesus disse: “tenho sede”: este grito de Jesus se dirige a cada um de nós:
Tens a sede do Amor que não temos, ébrios de tantas águas suicidas. Tu, Senhor, sofreste sede de mim, sede de meu amor e de minha vida. Mas também minha alma tem sede de Ti. À sede física de Jesus na Cruz, deve-se acrescentar sempre a outra sede, ainda maior: a sede de seu grande desejo de dar a vida ao mundo. Jesus tem sede de água, é verdade, mas tem mais dede de justiça, de paz, de reconciliação e de amor.
“Havia ali uma jarra cheia de vinagre… Jesus tomou o vinagre e disse: Tudo está consumado”. Tomar o vinagre significa aceitar sua morte causada pelo ódio e assim Jesus mostra seu amor até o extremo.
“Tudo está consumado”. Está cumprido. Sim, Senhor, é o fim. O fim de tua vida, de tua missão, de tua luta e de tuas fadigas. Tudo passou e chegou o fim. Mas o que é que está cumprido? O amor definitivo e incondicional de Deus. O amor sem cálculo e sem medida. Cumpriu-se o amor “até ao extremo”. Tudo terminou. Jesus levou a cabo sua missão até o fim. “Está consumado”. Sim, está cumprido de Tua parte. De nossa parte, falta-nos ainda esse dia a dia, de cada história humana, de toda a História da humanidade.
“E, inclinando a cabeça entregou o espírito”. Seus olhos se fecharam e sua cabeça inclinou-se para a frente. E seu último ato foi entregar-nos seu Espírito, o Alento de sua Vida, seu Espírito “para a vida do mundo” (Jo 6,51).
Diante da morte de Jesus guardamos silêncio, contemplamos e oramos: Hoje recordamos que a Paixão e morte do Senhor continuam nos milhões de seres humanos que padecem fome e pobreza extrema em nosso mundo. A maior tragédia da humanidade continua sendo a fome e a desigualdade.
Também continuam as vítimas dos sangrentos conflitos armados, e de todo tipo de violência que causam profundos sofrimentos a populações inteiras.
Hoje, Sexta-feira Santa, nos aproximamos dos crucificados da humanidade. Somos chamados a percorrer países inteiros, onde há tantos relatos de cruz pela fome, guerra, injustiça sem fim. Passamos diante dos olhos as imagens das vítimas, os corpos mutilados pelas bombas, as mulheres grávidas violentamente, as crianças vítimas de redes comerciais.
Ouvimos a voz dos sem voz, o ruído dos pés de tantos migrantes e refugiados (refugiados sírios, iraquianos, afegãos, africanos). Homens, mulheres, crianças, idosos, enfermos... Todos fugiram de um terrível conflito que já gerou milhões de refugiados que deixam sua terra com tanto sofrimento. Aos refugiados estão fechando todas as fronteiras, são lançados fora, como a Jesus que morreu fora de Jerusalém, fora das muralhas.
Na Sexta-feira Santa somos convidados a contemplar a cruz: “Eis o lenho da Cruz, do qual pendeu a salvação do mundo”. A resposta é: “Vinde, adoremos”, que significa ide até Ele para beijá-lo. Beijando a Cruz de Cristo, beijam-se todas as feridas do mundo, todas as feridas da Humanidade. Mais ainda: beijando a Cristo na Cruz, acolhemos nossas próprias feridas, nossos sofrimentos íntimos, nossas solidões e faltas de sentido, tudo o que nos oprime e nos angustia.
Também, ao beijar a Cruz, ao beijar hoje a Cristo crucificado, acolhemos seu beijo, o beijo de seu amor que nos reconcilia conosco mesmos e nos faz reviver. Cristo nos diz hoje a cada um: entrega-me tudo o que te pesa, tudo o que te escraviza, tudo o que te oprime, tudo o que te entristece... Entrega-me tudo. E nós, talvez, podemos dizer-lhe: Senhor, eu quero entregar-te tudo. Eu quero entregar-te toda a minha vida.  

Santo do Dia
S. Expedito
Invocado nos casos de urgência, necessidades inadiáveis e sufocantes

Embora o nome de S. Expedito seja citado em alguns calendários, faltam contudo dados que fundamentem a sua existência histórica. Sua devoção remonta ao século VIII, quando cultuado na Germânia e na Sicília. Há quem diga também que seu culto liga-se ao envio das relíquias de um santo das catacumbas a um convento em Paris, quando as religiosas confundiram a data da expedição (spedito = enviado) com o nome do santo (\"Spedito? ou Expedito). Outra versão diz respeito à sua conversão. Querendo mudar de vida, foi tentado pelo Diabo que, sob a forma de um astuto e dissimulado corvo, murmurava a seus ouvidos as palavras \"Crás!... crás!...? Amanhã!... Amanhã!... Rebatendo tais insinuações, dizia: \"Hodie!... hodie!...? Hoje!... Hoje!... Agora! Já! É invocado com a seguinte súplica: Ó Deus, que a intercessão de S. Expedito nos recomende junto à vossa divina bondade, a fim de que, pelo seu auxílio, possamos obter aquilo que nossos fracos méritos não podem alcançar. Nós vos pedimos, Senhor, que orienteis, com a vossa graça, todos os nossos pensamentos, palavras e ações, para que possamos com coragem, fidelidade e prontidão, em tempo próprio e favorável, levar a bom termo todos os nossos compromissos e alcançarmos a feliz conclusão de nossos planos. Por nosso Senhor Jesus Cristo. Assim seja!