Consulta diaria


Primeira leitura: Ex 12,1-8.11-14: 
Ritual da ceia pascal.
Salmo:  Sl 115,12-13.15-16bc.17-18 (R.cf.1Cor 10,16): 
O cálice por nós abençoado, é a nossa comunhão com o sangue do Senhor.
Segunda leitura: 1Cor 11,23-26: 
Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice proclamais a morte do Senhor.
Evangelio:
Jo 13,1-15: 
Amou-os até o fim.

 

 

Antes da festa da Páscoa. Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai; tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim. Estavam tomando a ceia. O diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus. Jesus, sabendo que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos e que de Deus tinha saído e para Deus voltava, levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido. Chegou a vez de Simão Pedro. Pedro disse: 'Senhor, tu, me lavas os pés?' Respondeu Jesus: 'Agora, não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás.' Disse-lhe Pedro: 'Tu nunca me lavarás os pés!' Mas Jesus respondeu: 'Se eu não te lavar, não terás parte comigo'. Simão Pedro disse: 'Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça.' Jesus respondeu: 'Quem já se banhou não precisa lavar senão os pés, porque já está todo limpo. Também vós estais limpos, mas não todos.' Jesus sabia quem o ia entregar; por isso disse: 'Nem todos estais limpos.' Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto e sentou-se de novo. E disse aos discípulos: 'Compreendeis o que acabo de fazer?' Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou. Portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz.

Comentário

A) Oferecemos em primeiro lugar um comentário bíblico-teológico tradicional.
Jesus passou a última tarde de sua vida em Jerusalém no círculo de seus discípulos, provavelmente também em companhia das mulheres que haviam descido à cidade santa com ele. Foi essa tarde, a tarde de uma festa pascal? Parece supérflua a pergunta; no entanto, há razões para fazê-la. E da relação que se estabeleça entre o ambiente pascal e a ceia de Jesus depende em grande parte a interpretação que se possa fazer do acontecimento histórico da morte e ressurreição do Senhor.
Se aceitarmos que Jesus e seus discípulos se reuniram para celebrar uma ceia pascal, então convém recordarmos os pormenores desta celebração. Em Nm 9,13 se deixa entrever a seriedade que tem para um judeu celebrar a festa: não celebrá-la é como já não pertencer ao povo. Conforme Ex 12,3, a festa devia ser uma festa familiar. A imolação e o oferecimento do cordeiro, que devia ser realizado por alguns dos membros da família representando a comunidade, devia ter lugar no átrio dos sacerdotes "entre as tardes", ou seja, no tempo que precedia o começo do pôr do sol. (cf Ex 12,6). O Haggadá pascal orientava a celebração no sentido da memória da libertação da escravidão do Egito (Ex 12,26s). Comer as carnes do cordeiro, beber o vinho, compartilhar o pão sem fermento, que devia recordar com as ervas amargas a miséria vivida no Egito, constituiam o ritual que estava acompanhado de bênçãos e da recitação dos salmos do Hallel.
Nessa ceia festiva, o ambiente estava impregnado pela recordação alegre e confiante da libertação, que teve sempre uma eficácia esperançosa em épocas difíceis. Nestas circunstâncias Jesus tinha consciência de sua morte e falou dela. Os textos de Mc 14,25 e Lc 22,18 constituem uma profecia da morte. Jesus expressa, ante a probabilidade de sua morte, a confiança e a confirmação de sua mensagem do Reino. Não é necessário assinalar que neste sentença de Jesus houvesse outras intenções que devemos levar em conta. É suficiente e fundamental pensar, ao ler estes textos, a intenção escatológica de Jesus, que ele relaciona estreitamente com a convicção da possibilidade de sua morte.
Nestas circunstâncias, Jesus realizou uma verdadeira interpretação teológica de sua própria morte, num sentido salvífico, indissoluvelmente ligada com seu projeto do Reino de Deus. E, de novo, neste contexto tem uma importância muito grande a relação que Jesus estabelece entre sua morte, assim interpretada, e os elementos da ceia: o pão e o cálice de vinho. Comer o pão e beber do cálice constituem algo completamente compreensível no contexto de uma ceia judaica, mas agora esta ação tem a ver com a interpretação da morte de Jesus, que ele mesmo oferece. Jesus deve ter dito outras coisas e deve ter compartilhado outros sentimentos com seus discípulos. Porém a tradição conservou seus sentimentos ligados principalmente com a ação do pão e do cálice. Quanto a este último, não sabemos com certeza se na ceia pascal, nos tempos de Jesus, se utilizava ou não um só cálice, num momento determinado, pois todos tinham seus próprios cálices. A tradição cristã recorda, em todo caso, a utilização de um único cálice como característico da ceia do Senhor (cf 1Cor 10,16).
As palavras de Jesus que nos foram conservadas para compreender o sentido do pão e do cálice repartidos, implicam, pois, uma interpretação salvífica de sua morte, tanto no sentido da expiação e da representação ("morrer por", "para o perdão dos pecados"), como no sentido de uma nova aliança.
Jesus, que interpretou assim sua morte e a relacionou intrínsecamente com os dons da ceia, deixou à comunidade de seus discípulos a possibilidade de viver sempre a realidade de uma nova aliança com o Deus salvador, no sentido do Reino definitivo que havia anunciado. A relação entre aliança e Reino já tinha uma tradição importante, mas na ação de Jesus adquiriu uma importância transcendental e original para seus seguidores.
Fazei isto em minha memória: Este mandamento do Senhor é verdadeiramente sagrado para os seguidores de Jesus. A experiência comunitária vivida originalmente pelos discípulos se converte em algo possível em todos os tempos para os cristãos. Trata-se de entrar no destino histórico de Jesus, que é a história mesma de Deus, seu Reino, que acontece definitivamente na manifestação suprema do amor.
Participar assim do destino do Mestre significa fazer, de maneira insuperável, a fraternidade humana. A ceia do Senhor é a asunção, por parte dos cristãos, daquilo que nos une mais profundamente: a vida mesma do Mestre, a história do Filho do Pai na qual participamos todos como filhos também e como irmãos uns dos outros.
E a ceia Pascal cristã foi originalmente uma páscoa judaica. Para os cristãos é o modelo da celebração eucarística, o modelo da celebração do mistério da Páscoa. Cada um de nós somos os protagonistas da Ceia do Senhor. E quando celebramos hoje uma refeição juntos, temos que fazê-lo com a mentalidade de Jesus, uma refeição que antecipa o reino de Deus, uma comunidade disposta ao serviço que a fortalece e enriquece, mas sobretudo uma comunidade de todos os seres humanos unidos pelo laço mais forte: o amor.

Primeira leitura, Êxodo 12,1-8.11-14: Da escravidão à liberdade.


A Páscoa sempre foi uma festa de libertação cujas origens remontam a costumes anteriores à Páscoa do povo judeu. Com efeito, os pastores nômades antes de empreender sua viagem, em busca de melhores pastos para seus rebanhos na noite de lua cheia, mais próxima ao equinócio da primavera, sacrificavam um cordeiro ou um cabrito nascido no ano anterior, macho, sem defeito; para que não perdesse sua energia vital; ao comê-lo não podiam quebrar-lhe nenhum osso. Ademais, como estavam numa regição desértica, sem água, o animal não era cozido na água, mas assado no fogo. Com seu sangue aspergiam as entradas de suas tendas de campanha para evitar a entrada dos espíritos malignos portadores de enfermidades e desgraças. Como deviam partir antes de nascer o sol, comiam às pressas, calçadas as sandálias, com o bastão na mão e prontos para partir. O sacrificio e a refeição tinham como finalidade assegurar a proteção de seus deuses no caminho que iam empreender, onde podiam encontrar salteadores e outros perigos.
Estes mesmos ritos foram adotados pelos israelitas quando celebraram a Páscoa; mas para eles mudaram de significado. Com o sangue do cordeiro marcam suas portas para evitar a entrada do anjo exterminador; o cordeiro não somente era imolado, mas também comido; desta maneira os comensais se comprometiam mais ainda com o mistério da festa. A Páscoa entre os judeus, unida indissoluvelmente à libertação do Egito, se reatualizava na liturgia, ou seja, fazia-se presente como se eles fossem os protagonistas e desta maneira o passado se manteve vivo e os projetava para o futuro.
A menção do sangue nos introduz em pleno sacramentalismo do Antigo Testamento e por ela se opera a continuidade entre a Páscoa judaica e a Páscoa cristã. Páscoa é a grande festa da libertação da escravidão e da morte, onde o sangue do cordeiro tem uma função redentora; mais ainda, como o Egito no Antigo Testamento é a terra do pecado, a saída do Egito é uma libertação da escravidão material e da escravidão do pecado. A Bíblia concebe a salvação à medida que se desenvolve a revelação como uma salvação do pecado. São Pedro, desenvolvendo esta ideia, nos diz: que tendes sido resgatados da vossa vã maneira de viver, recebida por tradição de vossos pais, não com prata e ouro, mas pelo precioso sangue de Cristo, o Cordeiro imaculado e sem defeito algum (1Pd 1,18b-19).
Salmo 115 (116): Senhor, sou teu servo, filho de escrava, mas rompeste minhas cadeias.
Este salmo é um cântico de ação de graças e de confiança no Senhor que livrou o salmista das cadeias da escravidão. Este salmo pode ser lido em três níveis: o canto do povo de Israel que na liberdade sabe que o Senhor o livrou da escravidão em que vivia no Egito. Também é o canto de Cristo ressuscitado, que sabe que seu Pai o libertou das cadeias da morte. Mas é também o canto de toda a Igreja cristã, libertada das cadeias do pecado pela Páscoa de seu Salvador.
A resposta do orante à libertação com o voto de louvor e sacrifício de ação de graças, parece privilegiar a alegria e o agradecimento do povo cristão libertado definitivamente do pecado, da morte e da lei, que celebra esta reconciliação na eucaristia em presença de seu Senhor morto e ressuscitado por ele.
Segunda leitura: 1Cor 11,23-26: Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice proclamais a morte do Senhor.
Encontramos aqui o testemunho mais antigo da celebração eucarística. Paulo transmite a tradição que ele recebeu dos discípulos de Jesus, ao mesmo tempo que mostra que a eucaristia não é uma celebração que recorda um fato passado, mas que está aberta ao futuro, a todos os tempos, porque nela anunciamos a morte do Senhor, a obra salvífica de Deus que oferece a todos, em todas as épocas.
A Páscoa judaica tem para os cristãos um novo sentido; como o texto do êxodo narrava a celebração litúrgica judaica, Paulo mostra a celebração litúrgica cristã como uma nova páscoa, com o anúncio da libertação sob o sinal do sangue que agora se transformou em pão e vinho. É o mesmo rito da aliança e da reconciliação, com paralelos que permitem compreender a celebração cristã desde o sentido da Páscoa judaica:

a noite da saída do Egito / a noite da Paixão
o cordeiro do êxodo / o cordeiro pascal
memorial das provações do deserto / memorial do sacrificio de Jesus

Paulo dirige sua atenção sobre toda a assembleia e mostra como uma celebração indigna da Eucaristia desemboca no menosprezo do Corpo místico de Cristo constituído pela assembleia e como esta é o símbolo da reunião de todos os homens e mulheres no reino e no Corpo de Cristo. Uma comunidade dividida pelo ódio e pelo desprezo aos demais não pode dar testemunho dessa união, antes, é um escândalo.

Evangelho, João 13,1-15: Compreendeis o que acabo de fazer?

Jesus antes de partir desta vida, quer que seus discípulos compreendam, com um gesto simbólico, o que significa sua missão: o lava-pés é a expressão do compromisso pelo serviço à comunidade que lhe foi incumbido. É muito significativo que no lugar onde os evangelhos sinóticos colocam a última ceia, João, sem dizer nenhuma palavra sobre esta ceia, descreve o sinal mais expressivo do amor e do serviço, porque quando havia chegado a hora, no momento em que sua missão termina, Jesus quer demonstrar seu compromisso definitivo com a humanidade por meio do serviço.
O lava-pés era um gesto que na antiguidade mostrava acolhida e hospitalidade; comumente quem o fazia era um escravo ou uma mulher, a esposa a seu marido, os filhos ou as filhas ao pai. Era um gesto de deferência ou de consideração excepcional para com os hóspedes. Jesus rompe a tradição: não pede ajuda. Ele, que preside a ceia e dentro dela, realiza o lava-pés, demonstrando que não há alguém maior que pudesse ser o primeiro; a comunidade de seus discípulos se conforma na igualdade e na liberdade como fruto do amor; e o Senhor se transforma em servidor, porque a verdadeira grandeza não está na honra humana mas no amor que transforma os homens e mulheres em presença de Deus no mundo. Este gesto é bem compreendido dentro da teologia da encarnação do mesmo João e também no sentido da mesma em Paulo (cfr. Fl 2,5-8). Porém o gesto não visa simplesmente apresentar-nos uma teologia própria de João, visto que não é difícil encontrar na outra tradição evangélica, a dos sinóticos, a mesma inspiração naturalmente não dramatizada: por exemplo, em Lc 22,27, no contexto da ceia, nos são transmitidas palavras muito significativas de Jesus no mesmo sentido: Eu estou no meio de vós como aquele que serve.
Por outra parte, o mesmo relato indica que o lava-pés é um meio pelo qual os discípulos "têm parte com" seu Mestre (Terás parte comigo: 13,8), o que nos faz compreender que tal gesto pertence ao corpo geral dos preceitos destinados aos discípulos como comunidade cristã, embora não seja difícil referi-lo à atitude daqueles que são associados à missão do Mestre enquanto tal.
Estava ceando com seus discípulos, nos diz o evangelista João, levantou-se da mesa, tirou o manto e, tomando um pano, amarrou-o à cintura. Minuciosamente nos descreve a cena porque cada um destes detalhes revelam o verdadeiro sentido da ação que Jesus vai realizar: o verdadeiro amor se traduz em ações concretas de serviço. Quando se diz que Jesus deixou o manto isso quer dizer que deixa de lado sua vida, a vida que ele dá por seus amigos. Depois toma um pano, como aquele que usavam os serventes; por isso é símbolo do serviço.
Jesus nega a validez dos valores que o mundo criou; ao por-se de joelhos diante de seus discípulos, Jesus, Deus entre os homens, destroi a imagem de Deus criada pela religião: Deus recupera seu verdadeiro rosto com o serviço. Deus não age como um soberano celeste, mas como um servidor do homem porque o Pai que não exerce domínio, mas que comunica vida e amor, não legitima nenhum poder nem domínio. O que Deus faz pelo homem é levantá-lo a seu próprio nível; Jesus é o Senhor, mas ao lavar os pés aos seus fazendo-se seu servidor, dá também a eles a categoria de senhores. Seu serviço, portanto, elimina todo poder porque na comunidade que ele funda cada um deve ser livre; todos são senhores porque todos são servidores, e o amor gera liberdade.
Seus discípulos terão a mesma missão: criar uma comunidade de homens e mulheres iguais e livres porque o poder que se põe acima do homem, se põe acima de Deus. Jesus derruba toda pretensão de poder, já que a grandeza e o poderio humanos não são valores aos quais ele renuncia por humildade, mas uma injustiça que não pode aceitar.
Pedro recusa ter os pés lavados pelo Senhor; isso indica que ele não entendeu a ação de Jesus. Ele pensa num Messias glorioso, cheio de poder e de riqueza e não admite a igualdade. Ele ainda não sabe o que significa amor, pois não deixa que Jesus lhe manifeste a grandeza de seu amor e sua medida: o que eu fiz convosco, façais também vós. A medida de nosso amor aos demais é a medida com que Jesus nos amou e isto que parece impossível, pode tornar-se realidade se nos identificamos com ele. Deveríamos poder dizer como Paulo: Não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim (Gl 2,20).
Quanto a seu significado, cada vez devemos repetir com o mesmo entusiasmo que este relato do evangelho de São João nos transmite uma mensagem verdadeiramente central da existência em Jesus Cristo: a vida do Mestre foi um testemunho constante da inversão de valores que se deve estabelecer para poder fazer parte do Reino de Deus. Não é o poder, nem a dignidade acidental, nem qualquer outro motivo de dominação o que constitui o segredo da verdadeira sabedoria de Deus. O grande valor que enobrece o homem é o de ter a disposição permanente para servir. Jesus o proclamou, segundo o evangelho de João, por meio de uma parábola que tem força incomparável: o Mestre se transformou em um escravo. O verdadeiro sentido profundo da existência do Mestre é o de ser servidor. Uma lógica assim se converte no segredo para edificar um mundo, cuja razão de ser não pode ser revelada senão por Deus mesmo.
Não celebramos a cerimônia do lava-pés simplesmente para recordar um episódio interessante e comovente da vida de Jesus, mas para reconhecer numa expressão sacramental a única maneira possível de ser discípulo do Mestre.
Jesus também nos ensinou que há mais alegria em dar que em receber; maravilhosamente o expressou Rabindranath Tagore: "Dormi e sonhava que a vida era alegria. Despertei e vi que a vida era serviço. Servi e vi que o serviço era alegria".
Hoje também é a festa dos ministros da Igreja. É o dia de recordar o espírito do Senhor no serviço. Ele não veio para ser servido mas para servir. Uma Igreja pobre, que serve, estará sempre perto dos que aspiram a uma libertação material e espiritual, dos que empreenderam o caminho do êxodo.
B) Complementamos com este roteiro homilético de meditação bíblico-espiritual:
«Tendo amado os seus, amou-os até o fim» (Jo 13,1-15).
Nestas palavras está condensado todo o Evangelho deste dia. Nesta tarde de Quinta-feira Santa, o amor de Jesus transpassa o espaço e o tempo e chega até nós. Era a ceia da despedida de Jesus. Era a ceia pascal, a festa em que Israel celebrava a libertação do Egito.
“Estavam ceando e…”. O evangelista quer que fique bem gravada em nós esta cena do lava-pés, e amontoa os verbos, oito verbos: levantar-se da mesa, tirar o manto, cingir a toalha, lançar água numa bacia, lavar os pés dos discípulos, enxugá-los. O evangelista descreve a cena “passo a passo” como se fosse um filme, como se quisesse suscitar na comunidade cristã uma atitude de como deve ser a nossa vida. Certamente eram homens e mulheres, porque assim era na tradição de Israel, nessa noite de Páscoa se reuniam homens e mulheres: estariam os doze e as mulheres que seguiam a Jesus.
Jesus “tira o manto...” Que beleza tão sublime neste gesto! Jesus se despoja de todo desejo de poder sobre o outro, abre um espaço à gratuidade, é o “espaço de Deus” no qual podemos existir plenamente. Que maravilha e que profundidade neste gesto!
“E pôs-se a lavar os pés dos discípulos… Como sabemos, “lavar os pés” naquela cultura era um trabalho de escravos. Jesus, lavando os pés, realiza um gesto escandaloso. O que Jesus faz somente os escravos faziam e, às vezes, as mulheres. Por isso, com este gesto Jesus provoca um choque em seus discípulos: que ele, o que preside a mesa, o Senhor, o Mestre, o Messias, se ponha a lavar os pés, é incompreensível para os discípulos. Como pode ser que o Senhor se ponha a lavar os pés? Eles o viam inclinado e ajoelhado, como um escravo lavando os pés. Jesus se ajoelha diante de cada um de nós e desempenha o serviço do escravo. Sim, imaginamos que Ele está ajoelhado a nossos pés.
Com este gesto, Jesus rompe os esquemas religiosos e os esquemas sociais, culturais, inverte os valores... Derruba a estrutura deste mundo injusto. O Deus de Jesus não age como Soberano, mas como servidor. Jesus é perigoso para as hegemonias, destrói nossos totalitarismos. Para Pedro isso é inaceitável. Sua reação é compreensível: “Senhor, tu me lavarás os pés?”. Pedro protesta: “Tu jamais me lavarás os pés”. É uma negativa categórica. Pedro não admite a igualdade. Encarna o modo de pensar da cultura dominante; crê que a desigualdade é legítima e necessária. Por isso, não aceita em absoluto que Jesus se abaixe até esse extremo, que seu Mestre seja seu amigo.
Fiquemos agora contemplando esta cena: Podemos imaginar que também nós estamos dentro “desse círculo” dos discípulos e discípulas, e que nos encontramos frente a frente com Jesus lavando-nos os pés. Ao ajoelhar-se diante de cada um de seus discípulos, Jesus se inclina também diante de todo ser humano e ainda se ajoelha diante de cada um de nós, hoje. Ele toca “a sujeira” que há em cada ser humano e em nós, toca as nossas fragilidades, nossos pecados, e nos devolve a dignidade e nossa liberdade. Ele nos torna livres de toda escravidão, de toda alienação.
É como se dissesse a cada um: “Tua vida é valiosa, eu a amo”. E também: Já não há nem senhores e nem escravos. Este gesto é revolucionário nesse contexto de mais de dois mil anos. Propõe uma revolução do amor e da ternura. Isto é o que celebramos nesta tarde.
Jesus, frente à incompreensão de Pedro, que não quer permitir que lave seus pés, não perde a calma e lhe responde bondosamente: “Se eu não lavar os teus pés não terás parte comigo”. Pedro fica pálido. Imagine a Jesus de joelhos diante de ti pedindo-te que o deixes lavar-te os pés. O que sentes? Resistirias como Pedro ou és capaz de acolher seu amor?
Pedro, que representa também a todos nós, não entende o que significa o Amor, pois não deixa que Jesus o manifeste lavando-lhe os pés. Não se deixa amar... Necessitamos que Jesus “toque” nossos pés. Os pés significam “a base” da pessoa, o fundamental. O que isso quer dizer? Quer dizer que sem uma experiência básica de amor não podemos viver, precisamos deixar-nos amar por Ele, deixar-nos alcançar por seu Amor no mais profundo de nós mesmos, para que nós façamos o mesmo. Permitirás que Jesus hoje “toque” teus pés?
Jesus termina o lava-pés, dizendo: “Compreenderam o que fiz com vocês? Sim, Eu, o Senhor e o Mestre, lhes lavei os pés; também vocês devem lavar-se os pés uns dos outros”. Não fazem falta muitas explicações. A única coisa que nos pede, é que nos deixemos amar por Ele e também, que nos amemos de verdade. Jesus nos lava os pés para dizer-nos o que é amar de verdade e para revelar-nos o valor de nossa dignidade e a de todo ser humano. Ao largo da história e atualmente, na Igreja houve pessoas sempre dedicadas ao cuidado dos enfermos, dos anciãos, das crianças, das mulheres em situação de risco e dos pobres do mundo inteiro; ou seja, que prolongaram ao longo da história o lava-pés.
O lava-pés de João é paralelo do compartir o pão e o vinho que os outros evangelistas narram. Por isso, hoje é o Dia da Eucaristia: É o pão partido e repartido entre todos como expressão do amor até ao extremo... A Eucaristia é um protesto contra a tremenda injustiça do nosso mundo e a celebração do amor e da vida para todos, sem exclusão. Por isso é também o Dia do Amor Fraterno, um amor que é inclusivo e se estende a todos os seres humanos, começando pelos que estão mais perto e pelos mais necessitados.
Nesta tarde, voltemo-nos para Jesus e digamos-lhe: Senhor, compartilhamos contigo a Ceia na qual nos revelas todo teu Amor. Que possamos compreender que és o Amigo que permanece sempre ao nosso lado, a alegria que ninguém jamais nos poderá tirar.

Santo do Dia
S. Perfeito

Perfeito sofreu o martírio na perseguição moura, em Córdoba, por volta de 850, acusado de blasfêmia contra Maomé, o profeta de Alá. Durante o tempo em que passou encarcerado, ficava pregando o evangelho de Jesus e conclamando todos à pureza da fé apostólica. S. Eulógio o apresenta: Reinando para sempre Nosso Senhor Jesus Cristo, no ano da sua encarnação, 850, da era (espanhola) 888; do consulado de Abderramom, 29; no tempo em que tinha a Espanha aumentado em riqueza e dignidade o povo árabe, ocupando por duro privilégio quase toda a Ibéria; quando Córdoba (chamada antigamente Patrícia e sendo hoje cidade régia) chegou ao ápice do seu esplendor..., gemendo a Igreja ortodoxa sob o seu duríssimo jugo, e achando-se em perigo de morte, nasceu em Córdoba o presbítero Perfeito, de santa memória, educado sob a direção de pedagogos da basílica de S. Aciselo, onde aprendeu as sagradas disciplinas, distinguindo-se pela erudição literária e conhecimentos da língua árabe...? (apud Leite, J. op. cit. vol. I, p. 332).