Consulta diaria


Primeira leitura: Is 43,16-21: 
Eis que eu farei coisas novas, e as darei ao meu povo.
Salmo: Sl 125,1-2ab.2cd-3.4-5.6 (R. 3): 
Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria!
Segunda leitura: Fl 3,8-14: 
Por causa de Cristo eu perdi tudo, tornando-me semelhante a ele na sua morte.
Evangelio: Jo 8,1-11: 
'Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra.'

 

 

Naquele tempo: Jesus foi para o monte das Oliveiras. De madrugada, voltou de novo ao Templo. Todo o povo se reuniu em volta dele. Sentando-se, começou a ensiná-los. Entretanto, os mestres da Lei e os fariseus trouxeram uma mulher surpreendida em adultério. Colocando-a no meio deles, disseram a Jesus: 'Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Moisés na Lei mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?' Perguntavam isso para experimentar Jesus e para terem motivo de o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão. Como persistissem em interrogá-lo, Jesus ergueu-se e disse: 'Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra.' E tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão. E eles, ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos; e Jesus ficou sozinho, com a mulher que estava lá, no meio do povo. Então Jesus se levantou e disse: 'Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou ?' Ela respondeu: 'Ninguém, Senhor.' Então Jesus lhe disse: 'Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais.'

Comentário

O belo texto da primeira leitura, de um discípulo de Isaías, é característico de sua teologia. Isaías foi com frequência chamado de “profeta do novo êxodo” (35,6; 41,18ss) e o texto que comentamos, um texto muito citado e utilizado pastoralmente, o mostra claramente. Com a fórmula clássica do “enviado” (“assim diz...”) começa a unidade; como ocorre com muita frequência Deus é apresentado por aquilo que “faz”. A mesma conclui no v. 21 já que no v. 22 começa um novo oráculo com estilo muito diferente. Com isso o texto da liturgia apresenta claramente uma unidade “redonda”. O estilo é hínico, como se nota nos paralelismos (semelhante a 40,22s; Sl 104,2ss; 136,5ss).

É interessante que apresenta uma longa introdução (vv.16-17) sobre o passado, fazendo memória dos acontecimentos do êxodo (Ex 13-14), mas com uma série de tempos verbais que devemos levar em consideração, já que se os dois primeiros são particípios (que traça, que faz sair), os dois segundos são imperfeitos (se lançarão, não se levantarão) e somente os dois últimos são futuros, e claramente passados (se apagaram, se extinguiram), e por isso o marco principal é o presente que coloca o leitor “no meio” dos acontecimentos, e com isso recorda a Israel que sua fé não se fundamenta nos acontecimentos do passado, mas num Deus que “faz” (no presente) essas cosas.

O que chama a atenção é que depois de toda esta introdução nos vem a dizer no v. 18: “não se lembrem das coisas passadas” (não se deve ler como pergunta, como fazem algumas Bíblias); as coisas “passadas” são as do êxodo, como vemos em 41,22; 42,9; 43,9; 49,9; 48,3. Por que não recordar o que acaba de por na memória? A memória (“recorda!”) é fundamental em Israel (Sl 78), e por isso a história é importante. Certamente porque o que vem “é novo”, já não estamos diante de um rio que seca para que um povo atravesse, mas num deserto que se enche de água para que o povo beba; novo aqui é o caminho no deserto (35,8-10; 40,3-4) e a água e vegetação nesse lugar (35,6-7; 41,18-19).

É interessante recordar que, para o tempo do êxodo, o deserto é um lugar terrível (“enorme e temível”, Dt 1,19; 8,15); ali Deus tirou água da rocha, e deu alimento caído do céu; o que agora vai realizar –e realiza– é algo notavelmente superior, que faz empalidecer o “antigo”. Os acontecimentos que narra nos recordam o que nos diz que não devemos recordar, e agora é imperfeito: é algo que “se está fazendo”. Entre a dupla referência à água no deserto, aparece uma estranha imagem: os que glorificam a Deus são os animais do deserto, não o povo (embora estes parecem ocupar seu lugar, como é frequente, por exemplo, nos sacrifícios, e se confirma no relato com a dupla referência “meu povo, meu eleito”). É este povo que cantará os louvores de Javé (ver 43,10; 44,8), e é apresentado como o povo que “modelei para mim”, com o qual regressamos às imagens de criação, muito frequentes no discípulo de Isaías (ver 43,1.7).

O que o autor quer destacar é que não se deve permanecer nos acontecimentos do passado por mais maravilhosos que tenham sido; ficar nos acontecimentos e não em Deus é uma forma sutil de idolatria; é Deus que deve ser recordado, pois é ele que fez, faz e fará. O êxodo é o acontecimento arquetípico e por isso é modelo de acontecimentos novos, não é algo no qual Deu se estancou no passado. A “memória apenas” pode ser perigosa, não pode ser um permanecer “estancados”, não tem valor se não vier acompanhada da esperança, se não prepara o futuro.

Na carta aos Filipenses vemos que o que mudou Paulo dando um novo enfoque à sua vida é o “conhecimento de Cristo Jesus”. É certo que outro “conhecimento” pode ser inútil ou até perverso, mas se de conhecimento de Cristo se trata, esse chegará à sua plenitude no final dos tempos, onde “conhecerei, como sou conhecido (por Deus)”, 1 Cor 13,12. Tudo é “pela causa de Cristo” (v. 7). A esperança judaica no messias era certamente futura, porém Paulo é consciente que já conheceu. No entanto, todas as esperanças de Israel, que tão bem ficam expressas em Rm 9,4-5 não “conheceram”, e ficaram à margem. Isto é para Paulo, um motivo de grande sofrimento, como o manifesta especialmente (9,3). Mas para ele, tudo o que preparava a chegada de Cristo, já não tem sentido, como o pedagogo (Gl 3,24-25) não tem sentido uma vez que a criança chegou à escola à qual ele a levava. É importante notar como Paulo começa a por os fundamentos para uma marcada separação entre Israel e a Igreja: todo o anterior, em comparação com Cristo é nada menos que lixo.

A linguagem que Paulo utiliza se baseia no econômico “perda/lucro”, mas também no mundo dos esportes. Paulo pretende (note-se a semelhança com a linguagem de 1 Cor 13 que acabamos de mencionar): “ganhar a Cristo e ser alcançado por ele”. As imagens desportivas não são estranhas a Paulo (1Cor 9,24-27; 2Cor 4,8-9), e servem a Paulo como um exemplo a mais para destacar algo que já começou, mas que ainda não está concluído. No entanto, Paulo não pretende que as imagens sejam suficientes; ele não corre com suas próprias forças, não espera chegar com sua “justiça”; não o alcançou, mas foi ele mesmo alcançado por Cristo. Embora mais de passagem do que em Gálatas e Romanos, fica levantado o tema da fé e as obras. Paulo sabe que colabora com a obra de Deus, mas sabe que não são suas forças as que lhe permitem alcançar a meta (notar estes binômios tão característicos de Paulo: conhecer/ser conhecido, ganhar/ser achado, alcançar/ser alcançado). A justificação –a meta– somente pode vir da iniciativa de Deus, não pela lei, mas pela fé.

Como não conhecemos o contexto deste relato do evangelho de João, que é um relato adicionado, não sabemos as razões pelas quais querem fazer Jesus “cair numa armadilha”. Mas dada a semelhança com os acontecimentos do final da vida de Jesus, segundo nos contam os evangelhos sinóticos, podemos pensar que o drama já se desencadeou e se pretende agora por todos os meios encontrar argumentos para um juízo que já está decidido. Neste sentido, o texto é semelhante ao da moeda do imperador César. Tampouco é fácil saber exatamente qual é a armadilha, mas parece ser a de colocar Jesus na disjuntiva entre, por um lado, ser fiel à lei de Moisés, e consentir em que a adúltera seja apedrejada, e então sua insistência na misericórdia se revele “hipócrita”, ou, por outro lado, insistir na misericórdia e assim manifestar-se infiel àquilo que foi ordenado por Moisés.

Não vão buscar Jesus porque confiam em seu bom critério ou porque reconhecem autoridade em sua palavra, ou porque ele possa decidir a sorte da mulher. Na realidade, neste drama nem Jesus nem a mulher são importantes. Ambos são rechaçados pelos escribas e fariseus. Jesus, porque tentam pegá-lo; a mulher porque é uma simples desculpa para esse objetivo. Por isso, porque sua palavra de fato não conta, é que o Senhor se inclina para escrever no chão. Manifesta seu desinteresse pela questão, como eles também a manifestam.

Como nós homens somos tão rápidos para julgar e condenar... É tão fácil neste caso! Nada menos que uma adúltera, surpreendida em plena infidelidade. Deve aplicar-se o rigor da lei: deve ser apedrejada! De passagem, veremos como Jesus é fiel à lei. A atitude do Senhor não parece ser muito atenta; quase até parece indiferente. Em nossas atitudes, muitas vezes, julgar e condenar vão de mãos dadas. Os homens já condenaram, agora esperam que Jesus fale para que ele também condene a mulher.

Sexo? Que horror! Para muitos, continua ainda sendo o mais grave e horroroso dos pecados. É verdade que muitas vezes já caímos no outro extremo; nem falamos mais desse assunto... porém quantas vezes nos encontramos com atitudes ou comentários dando a entender que o único pecado existente é o pecado sexual. A inveja, a ambição, a falta de solidariedade, a injustiça, a soberba, e tantos outros, parecem não estar na “lista”. O sexo é "o" pecado. Essa é também, a atitude dos acusadores da mulher: foi apanhada em pleno pecado, deve ser apedrejada! "-Muito bem, aquele que não tiver pecado atire a primeira pedra". E, por acaso, os primeiros a se retirar são os anciãos, os que já não têm "esse" pecado. Muitos pecados existem, não um, mas nós julgamos, e até condenamos!

Quem considera pecado suas opções políticas, que veem seus interesses e não o que melhor beneficie a causa de todos, especialmente dos pobres? Quem considera pecado sua falta de solidariedade com os marginalizados de seu mesmo bairro e região? Quem considera pecado seu "não te intrometas", ou sua falta de compromisso político para que os pecados desapareçam?

Este que hoje lemos, foi o texto comentado por Dom Romero em sua célebre última homilia: “Não encontro figura mais bela de Jesus salvando a dignidade humana, que este Jesus que não tem pecado, frente a frente com uma mulher adúltera... Fortaleza, mas ternura: a dignidade humana acima de tudo... Jesus não se importava com (os) detalhes... Ele ama, veio precisamente para salvar os pecadores... convertê-la é muito melhor que apedrejá-la, ordená-la e salvá-la é muito melhor que condená-la... As fontes do pecado social estão no coração do ser humano... Ninguém quer assumir a culpa e todos são responsáveis... da onda de crimes e violência... a salvação começa arrancando cada pessoa do pecado". "–Não peques mais".

Oração
Fazei, Senhor, que neste tempo em que vivemos, que não os sentimos tanto como uma época de mudanças, mas como mudança de época, nossos corações estejam firmes nas grandes Causas e Opções que nos orientam, para que entre as dúvidas e as sombras, sempre encontrem “aquela Paz” que consola com consolos inefáveis. Nós vo-lo pedimos inspirados em Jesus, nosso irmão maior, Transparência vossa.

Santo do Dia
S. João Batista de La Salle
1615-1719 ? sacerdote e fundador

Natural de Reims, João Batista de La Salle fundou em 1684 a congregação dos Irmãos das Escolas Cristãs, dedicada à educação da juventude. Foi o pioneiro dos institutos seculares de leigos consagrados, o inovador da educação e dos métodos pedagógicos. Para constituir sua obra, não quis usar das posses de sua rica família, mostrando assim que era Deus o seu Provedor e sua herança.